Histórias de amor, um toque, saudade e poeira de despedida

De minhas historias de amor lembro-me de todas. Amar para mim é tão natural quanto respirar. Mesmo quando a gente se afoga em nossos amores, e soluça em cheiros perdidos e abraços deixados pelo meio do caminho. Desde que você não ame pelo outro, amar nunca é demais.

Amar faz meu sangue circular na contramão das veias, entorpeceu meu corpo e me fez sorrir aquele sorriso bobo e sem jeito. De quem não sabe nem pegar na mão. Fato é que Sempre se tem ama história de amor para contar, lembrar, e em algumas vezes, ainda aquecer o coração.

Essa história de amor aconteceu quando em férias escolares, na casa dos meus tios. Uma cidadezinha no interior do Ceará, pacata e mínima. Era por volta de dez horas da manhã quando ela chegou com duas amigas, estava na cozinha com meus primos quando sua entrada prendeu meu olhar e respiração.

Tinha dezessete anos e cheirava a verão, eu tinha treze e cheirava a vaca suja, eu acabara de sair do curral das vacas, estávamos limpando estabulo. Fiquei paralisado, dopado, anestesiado. Cada palavra soada de sua boca me levava ao paraíso, cada olhar, gesto, qualquer ato seu me deixava encantado.

Naturalmente, ela nem me viu, e naturalmente devolvi seu desprezo com o mais profundo amor de meu coração. Lembro do nome dela, Carla. Carla era a mais pura beleza para meus olhos apaixonados. Seus olhos de mel, seu cabelo avermelhado, seu corpo delineado. Fogo nas minhas estranhas e ardor sem fim nas veias do corpo, ardendo sem parar.

A noite brotou mansa, e fomos brincar na rua de carimba e pega-pega, eu correndo igual a um pavão emplumado quando ela chegou perfumada, repentinamente tudo ficou mudo eu não conseguia ouvir mais nada ao meu redor, só ouvia o bater desesperado de meu coração batucando ao som delicioso daquela voz rouca e tímida.

Mas ela era tão segura, tão dona do mundo. Cheirava a arco íris, ao menos eu acho que arco íris cheiram a mel e água do mar. Ela sorrindo, simpática, para todos, também sorriu para mim, o que me fez ter vergonha de estar vestido como um menino, acanhado, me afastei.

Claro que ela não me viu, nunca soube de mim. No outro dia não a vi. Até que no terceiro dia, no fim de tarde, foi improvisado uma racha na rua, meninas contra meninos. A bola rolou nós perdemos de goleada. A gente só queria ficar perto das meninas com seus cabelos cheirosos e risadas fartas.

Mas o mais importante da tarde foi quando eu recebi a bola no meio de campo e a ruiva se aproximou de mim, desfilando em passos livres e firmes chegou até a mim, eu paralisado e mudo, ela tomou-me a bola, e neste momento, por um breve momento, tocou em mim.

Pude sentir seu toque, seu cheiro, sua respiração. O coração palpitava mais do que o Maracanã lotado. Estava ali selado a minha sina. Era aquele gosto que eu queria guardar em mim. O gosto do amor. Não lembro mais do resto da tarde.

E assim foi-se os dias. Eu nunca mais a vi. A não ser no dia que ela foi embora, eu a vi de longe entrando no ônibus do outro lado da rua. Ela partiu entre poeira e sol. E aquele verão ficou guardado em mim, e quando faz sol, às vezes, sinto o cheiro esparramado na brisa. O cheiro de meu primeiro amor.

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