A descida pro riacho e os cheiros das andanças nas matas de querubins

Lembro do sorriso alargando nos lábios à medida que me aproximava da velha casa de barro, o coração leve ia aos poucos levitando acima de minhas nuvens de cor a cada passo dado na descida do lajeiro do Bolacha. Cheiro do cafezal, cheiro do bananal, abacateiros e tangerinas fundindo em minhas narinas odores de felicidades, me apressando ainda mais o passo.

Passos apressados para entrar logo em casa, pelos fundos, onde a porta da cozinha estava sempre aberta, escorada ao léu, por onde saía parte da fumaça do fogão à lenha. Depois, jogar a sacola de roupa em algum lugar da casa e correr ladeira abaixo, descalço na terra barrenta e úmida que seguia fio até o riacho na encosta da montanha. Tudo sombreado por abacateiros, mangueiras, jabuticabas e árvores da floresta com enormes ramas de pimenta do reino subindo por seus troncos.

Tinha doze anos à época e estava começando a trilhar e acampar sozinho, usando as férias da escola para fugir da cidade cinzenta indo me perder nos cheiros e tons da mata densa das serras de Uruburetama, seguindo riachos, enveredando por bananais. Indo e vindo de longe para o além das coisas concretas nas pequenas correntezas cristalinas do riacho cheiroso. 

Silencioso e só, armava acampamento perto da casa de minha tia, que me socorria com guarita e alimento, mas nem bem terminava o almoçar e já estava a perambular por entre árvores e pedras, correndo mundo, correndo quintais, correndo manhãs de sol pelos riachos soltos como eu. Voltando quando o sol já se punha. Às vezes nem voltava. Findava em passar dois ou três dias na casa de algum parente ou conhecido.

Usando as roupas dos primos, escovando os dentes com casca de juá, dormindo no frio porque o lençol era curto… o que me importava era o bater de asa, indo alí e acolá, ouvindo os sons da mata, sentindo o cheiro das coisas. E eram tantos cheiros, tantas andanças. 

Andanças por lugares sem energia elétrica, sem celular, sem wifi. Vivendo com a mais bruta matéria de vida que meus conhecimentos da idade permitiam. Ouvindo histórias das assombrações da mata, dos feitiços da lua, das noites de ira dos homens, da força viva dos rios, de lutas entre demônios e querubins duelando ao sol do meio dia. 

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