O andarilho solitário em busca de conexões profundas

O vento sopra forte pro lado oposto do nascer do sol, considero isso um motivo suficiente para minhas andanças do dia, e, como andarilho a tanto tempo, qualquer motivo me é razão para perder prumo, no rumo das dunas, lagoas e morros do farto litoral cearense.

Sigo viagem ao sol em dias de andarilho e nas noites de bandoleiro paquero a lua perolada. Solto pelo vento a cada amanhecer, longe do mundo exageradamente consumista, vago com mochila nas costas, sem pressa. E se não tem pressa é porque o andarilho é vagabundo. Todo hiker é meio vagabundo. Viajam sem pressa, descompromissados, o que nos permite ver outro mundo fora do mundo humano e tecnológico. Me permito conhecer comidas exóticas, viagens alucinantes, festas macabras, passagens secretas, mundos esquecidos, ritos ocultos, rezas poderosas. 

Por entre as terras altas da Tucunduba, pelas areias brancas de Paracuru, caminhei nem sempre sereno, às vezes fogo, às vezes vento. Por vezes castigado pelos elementos, seguindo viagem ao redor de mim, embarcando em ilíadas e odisseias pelas terras afoitas por sangue dos filhos das américas, vigiando o norte, esperançando o sul.

A trilha me leva pela lateral do mar, em muitas subidas e descidas por enormes dunas brancas onde o vento assobia violento, lançando finos grãos de areia por todos os lados. Banhado de suor e areia, sigo sigiloso na natureza. Explorando o que há de estranho a mim, caminho exausto e infectado de memórias pouco queridas. Me abrigo em moitas de murici e abro a garrafa de vinho em busca de uma compreensão maior do mundo ou de satisfazer meu desejo por álcool, não me parece claro o motivo.  

Tampouco me debruço a cogitar motivos, não estou em busca de nenhuma viagem espiritual, só estou aproveitando as pequenas alegrias e agonias das viagens. Uma caminhada de andarilho nada planejada, na verdade, parto em busca de aventuras, sem rastros de combustível ou pegadas de carbono, seguindo pelas dunas, depois do consumo do vinho, em ritmo lento.

Lembro que, inicialmente, quando comecei a percorrer trilhas, costumava traçar planos, e nem imaginava que os desvios e sobressaltos somam histórias, conversas, momentos e aventuras. É por isso que, mesmo seguindo uma direção definida, confio na intuição de me deixar ir destino incerto, ora para a esquerda, ora para a direita. Apenas por curiosidade, muitas vezes, outras por necessidade, mantendo a mente aberta.

Atento a jornada, me vejo de frente a uma grande lagoa que contorna vários morros. Escolho um lugar seguro e com sombra para armar a barraca, acendo a fogueira, deixo o tempo ir folgoso pelo fim de tarde, enquanto como calabresa e miojo, com as pernas estiradas até os pés encostarem nas águas frias do lago.

Por fim, subo o morro alto e me deito sonolento a olhar estrelas e vagalumes, até me perder em conexões astrais nada ortodoxas, como se fosse andarilho das estrelas. 

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