Poesia andarilha

Escrever é por vezes uma aventura desafiadora, para quem aprecia palavras e verbos. Pensar, refletir, escrever, recompor, encarnar, brotar, morrer. E como andarilho no mundo, pelo afora, sigo margeando frases, enganando rimas, indo ali e acolá pelas trilhas solitárias do além de tudo.

E me vou, porque ir me é melhor remédio.

Do Que Fui Já Serei

Sou uma sombra
e percorro a noite

Vago nos mesmos caminhos
de todos nós miseráveis

Mas antes saiba
que nada aqui possui veneno

É o doce que nos mata

E por mais que se lustre a alma
ainda somos sombras

E ainda corremos nus pela mata

Naldox

Godivando

Sou a godiva em erupção
Fervem em mim entranhas e pensamentos soltos
Abraçam-me estrelas e pirilampos ensandecidos
Cuspo flores agitadas em copos vazios
Vidas vazias
Almas penadas

Mais um dia de sol na cidade descabelada

Naldox

333

Guardei em mim um poema esquecido
Atravancado na alma, ruminado no peito
Sem nome, sem data, sem ofício

Guardei em mim um almanaque perdido
Escrito com unhas e dentes e sobras de cal
Sem cor, sem beleza, sem sal

Guardei em mim tudo que nunca fora
Na sombra desconfiada e muda da desilusão

Naldox

Chicle Cicuta

Tantas vezes tudo
Tantas vezes solidão
Tantos caminhos perdidos
Tantos lábios encontrados
Na boca chiclets de menta e sorrisos envenenados

Sigo ladeira acima
Acima de tudo a madrugada se acomoda em meu peito
Despercebido entre cinzas e borrões
Vou empurrando a máquina quebrada
Enquanto a sorte me bafora um sopro de anis
Saindo da boca do dragão

Naldox

Luluando

Plantei um jardim florido
que reluz a luz da Lua
Corre doido em travessuras
dança, floreia e pula
Voa longe pelo mundo
sempre faz das suas
Bate forte, segue em frente
Tem a força das coisas puras

Naldox
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